Bahia Cultura e Entretenimento Cultura Viva Música Nossa Origem Notícias Satélite Negro

Romero Mateus volta aos palcos depois de seis anos e divulga sete novas músicas para celebrar seu retorno

Foto: AGS9
Foto: AGS9

Na última sexta-feira (15) o badalado restaurante Malembe, localizado na Ladeira do Carmo –
Centro Histórico de Salvador, recebeu pela primeira vez o show do músico, jornalista e
empresário Romero Mateus.
E para detalhar o que ocorreu em uma noite que abraçou todo o povo preto, nada mais firme
do que começar com a citação do mais belo dos belos: “Um sorriso negro, um abraço negro
traz felicidade.” Pois bem irmãos, o inicio dessa emoção fica com a homenagem do cantor à
capital baiana, onde o artista reforça sua identidade preta e contempla o afro groove com a
canção Sete Portas.
Essa referência ao segundo mercado negro de Salvador, que tem mais de 80 anos de história,
fez com que Romero se sentisse dentro de um dos livros de Jorge Amado no qual remete
aquele sentimento de boêmia ao explorar riquezas de sua histórica cidade. Além disso, não dá
para esquecer todo o poder ancestral que a cidade dos encantados carrega.
Já que a música coroa momentos, passagens e personagens Romero homenageou seu pai e
compositor Romero Ferreira, o Romerão, que escreveu a música Filhas de Yansã, canção essa
que faz uma referencia às mulheres abordando e direcionando as características femininas
com a deusa dos tornados e relâmpagos.
E as contemplações musicais não param por aí, até porque, o foco é o mundo preto cujo
objetivo é reforçar e firmar nossas raízes de todas as vertentes possíveis.
Ao dizer isso, é mais que salientável citar a referência musical de Romero. Como ele mesmo
disse durante sua apresentação “é impossível fazer um show sem cantar Tim Maia.” E
aproveitando o espaço deixado pelo músico, como não lembrar de Sebastião Rodrigues Maia?
Cantor, compositor, maestro, produtor musical, instrumentista e empresário brasileiro,
responsável pela introdução dos gêneros soul e funk na música popular brasileira e
reconhecido como um dos maiores ícones da música no Brasil. E o interessante de tudo isso é
o cantar. O aluno Romero canta na mesma região que o ídolo, com aquele grave forte e um
carregamento de rouquidão na voz.
E não para por aí, a dinâmica do soteropolitano é semelhante a do cantor carioca porque
coincidentemente ou por fortalecimento do campo de inspiração, os artistas dentro do seu
tempo tem um eixo de atuação múltiplo e o resultado de todo esse trabalho reflete na
expansão da afro musicalidade.
Englobando tudo isso, como não citar o acolhimento de Salvador com todos que nela habitam
ou para quem chegam para conhecê-la? Essa reflexão é direcionada à proteção dos
encantados: o que seria dessa cidade sem os orixás? Talvez demoraremos mais 472 anos para
ter essa resposta ou entender esse caminho divino. Mas como os deuses têm esse mistério,

nada mais justo que nós tenhamos essa incógnita pelo resto da vida e como herança o que
devemos fazer é preservar toda essa riqueza deixada pelos tios e pelas tias, como eram
conhecidos os nossos antepassados.
Dessa forma, seu Romerão pai de Romero escreveu a canção com Fé nos Nkisses que retrata
essa ancestralidade que nossa capital carrega e a sexta-feira de retorno foi a prova viva do
retrato da canção porque é dia de Oxalá ou Lembá, a nomenclatura ao orixá vai de acordo a
nação em que ele é cultuado.
E como manda os costumes, é dia de vestir branco em respeito a divindade. E o manto do
respeito não para em Salvador, os outros dias da semana também tem sua representação
divina cada casa com a sua nação e costumes e a preservação e respeito a ancestralidade
continua.
Até porque no período da escravidão quando um irmão preto conseguia fugir e encontrar um
quilombo para se refugiar era abraçado e, com isso, a comunidade se sentia mais forte por ter
mais um integrante que agregava em busca da liberdade dos outros irmãos que ainda se
encontravam reclusos. E dessa forma, como cada dia ainda é uma luta em busca da vitória
contra o racismo e desigualdade social, quando um irmão acolhe o outro fortalece mais a
essência da melanina. Enquanto isso, outras canções eram entoadas e dentre elas, É D’Oxum,
composta pelo músico Gerônimo.
Aliás, como não citar a mãe das águas doces? A grande responsável por banhar parte de
Salvador com as águas do Dique do Tororó. Então essa energia dos caminhos de ouro faz parte
da estrutura que sustenta Salvador e junto a ela está o orixá Inkossy/Ogum. Guardião dos
caminhos e dos passos de Romero, essa divindade é responsável por ouvir as preces e pedidos
do artista que não mede esforços para dizer a quem pertence seus caminhos.
Quando juntamos todos os elementos que nos proporcionam felicidade, nada mais justo que
dividir o momento com quem nos acompanha. Foi dessa forma que Romero convidou sua
companheira Shirlei Silva para cantar uma canção que faz parte do movimento AfroLover, o
casal protagonizou o momento em que todo preto precisa ter, desfrutar o momento do amor.
Como a alegria já estava espalhada pelo Malembe, terminou de transbordar depois que
Gabriel Ribeiro chegou com seu pandeiro e fez Romero, banda e público caírem no samba de
roda e representarem os nossos antepassados, quando dançavam ritmos típicos da África. E no
Malembe não foi diferente, todos esbanjavam sorrisos, contagiavam-se ao som do samba de
roda e relembravam bons momentos. Com isso formou e contemplou um reforço a
musicalidade afro baiana e brasileira.
E foi dessa forma o retorno de Romero Mateus aos palcos depois de seis anos, foi
desenvolvido com muita cultura, uma musicalidade preta trilhada em vários quadrantes
fazendo com que o artista declarasse que muitos encontros ainda estão por vir.