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Diário de Gênero: O que falar sobre Travestis Velhas?

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Em alguns círculos trans* brasileiros dizemos que uma travesti de cinquenta anos é velha. Tenho algumas amigas nessa idade e, quando viajamos ou nos encontramos para um jantar ou barzinho, nossas brincadeiras giram em torno de “nossa velhice”. Eu tenho 35 anos e um pouco dessa narrativa que me constitui faz com que eu, de fato, me sinta velho. O mesmo não acontece com os heterossexuais. Cinquenta anos é uma jovem mulher que já pode usufruir das conquistas de sua vida, sejam os filhos já criados, o trabalho ou ao menos a liberdade que a adultez a garante. Eu sou um homem gay e essa narrativa da velhice só me interpela pela proximidade com essas amigas trans* uma vez que o elogio à juventude permeia o círculo gay.

Não sou um especialista em sexualidade e geração e escrevi essa coluna a partir do pedido de uma aluna de doutorado, Alexia Zúñiga, fotógrafa, que cursou “Gênero e Sexualidades” no PPGNEIM. Ela está organizando uma exposição sobre velhice e comunidade trans* acima dos 60 anos. Parte do seu trabalho pode ser vista em sua página pessoal, <www.zupafoto.com>, e o objetivo de seu trabalho é “abordar o tema da transição como uma maneira de conhecimento de nós” e foi realizada no Brasil e no México com vínculo na linha de pesquisa “Processos Criativos de Artes Visuais” da Universidade Federal da Bahia.

Quando fiz 18 anos me tornei um ativista gay. Participei da fundação de uma ONG não mista que foi abrigada no Centro de Referência LGBT da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Compartilhava o espaço conosco a ASSTRAV – Associação de Travestis e Transexuais de Minas Gerais, na época presidida por Walkíria La Roche. Há muito tempo não falo ou escrevo sobre Walkíria, mas digito seu nome sem erros, já que o início da minha vida profissional em gênero e sexualidades foi marcado por centenas de ofícios e documentos que carregavam esse nome. Na ASSTRAV conheci uma mulher idosa, pouco hormonizada, cujo sonho, aos 60 anos, era a cirurgia de transgenitalização. Não vou citar seu nome para não expô-la: o que importa é o que ela representa, diria Foucault. Essa mulher, mesmo sob um sol de 35 graus, cobria a cabeça com um lenço, usava um grande chapéu e vestia calças, saias e blusas, sempre compridas. Não queria ser identificada na rua como uma pessoa trans*. Suas únicas saídas de casa eram para visitar a ASSTRAV e sua chegada no Centro de Referência causava um misto de euforia e aversão. Ela queria nossa ajuda, no início dos anos 2000, para conseguir a sua cirurgia no serviço público. Tinha dias que ela estava super bem humorada e nos dava aulas de história da arte, literatura e cinema. Era uma especialista em cinema dos anos 1950 e 1960. Conhecia as atrizes, suas histórias de vida… Era também uma leitora nata e escutava música clássica. Ao longo dos anos descobri que tinha trabalhado muitos anos como bibliotecária e daí veio a sua pequena aposentadoria. Excluída da família, que a rejeitava, e da sociedade pelo seu medo de ser apontada na multidão, sua vida se resumia aos serviços domésticos e as visitas semanais ou quinzenais à ASSTRAV.

Alguns dias ela estava de mau humor. Chorava muito, reclamava dos vizinhos, nos xingava e dizia que sofria perseguição em todos os lados. Nesses dias muitos se afastavam dela. Eu, que tinha um avô antropólogo e afeito da escuta, tentava acalmá-la. Algumas vezes brigamos, discutimos. Ela me chamava de “bichinha pão com ovo”, de “viadinho de merda”. Eu a abraçava e dizia que tudo ficaria bem. Nem sempre tudo ficava bem. Após o primeiro ano de trabalho, em um de seus dias de bom humor, ela perguntou se eu gostaria de visitar a sua casa. Eu disse que sim. Cheguei em sua casa e a mesa estava montada, ela estava recebendo a primeira visita em anos! Um LP tocava música clássica e ela me mostrou os quadros da parede, impressões de obras de grandes pintores. Me mostrou sua coleção de DVDs de filmes clássicos. Serviu-me café. Me contou que mantinha contato com sua mãe, única da família que ainda “se preocupava” com ela. Sua mãe devia ser uma mulher idosa, de 80-90 anos. Me contou que não era travesti nem transexual, que tinha nascido com um micro pênis, que não era “como as outras”. Seu micro pênis parecia dar-lhe mais legitimidade como mulher.

Poucos meses depois ela conseguiu o direito de fazer sua cirurgia. Como era fumante sua cirurgia teve complicações, conseguiu fazer a parte estrutural mas não a estética. “Estou mais feliz”, me dizia. Não tinha tido um namorado desde a juventude. Nos tornamos amigos, mantivemos contato telefônico depois que saí de Belo Horizonte. Mais de uma década depois perdemos contato, mas ela continua amiga de minha mãe que me dá notícias suas. O feminismo atual diz que não podemos falar em nome das pessoas e dos grupos que não representamos. Essa mulher de quem falei está gravada no meu corpo, no meu pensamento. Eu sou um pouco ela, mesmo que digam que não posso ser. Se ela tinha 60 anos no início dos anos 2000 hoje deve estar beirando os 80. Não é vista pois, pelo que sei, continua trancada em casa e parou de frequentar o Centro de Referência.

Texto: Prof. Dr. Felipe Bruno Martins Fernandes | Professor do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da UFBA e Coordenador do GIRA.

Foto: Alexia Zúñiga disponível em: http://www.zupafoto.com/lonuevo/?p=936

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