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Diário de Gênero: Hoje fui chamado de conservador!

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Pulula nas redes sociais imagens e comentários sobre a repressão contra as manifestações de ontem em Brasília. De imagens oriundas das esquerdas de caravanas de ônibus chegando à capital para protestarem contra as reformas do governo Temer que ferem os direitos dos trabalhadores à matérias mais de direita que afirmam que Dilma, assim como Temer, também usou o exército nacional na dissipação da oposição ao governo, numa tentativa de posicionarem ambos os governos como tratando da mesma forma as manifestações dos trabalhadores.

A verdade é que, mais uma vez, nossas redes sociais foram tomadas por imagens de jovens e trabalhadores ensanguentados, um jornalista de Santa Catarina que perdeu o dedo, todas com o Congresso Nacional em segundo plano e o belo céu azul do Centro-Oeste como pano de fundo.

Me choquei especialmente com a foto de um homem negro, claramente machucado, apontando para o batalhão responsável pela repressão. Nessa foto fiz o primeiro comentário: “#ForaTemer”. Algumas horas depois, quando os comentários se multiplicaram, voltei à postagem. Para a minha surpresa os comentários eram os mais reacionários o possível. Apenas um exemplo: “a ‘manifestação’ foi em uma quarta feira, dia útil. Se o vagabundo estivesse trabalhando é bem possível que não fosse atingido”.

Outro comentário apontava o absurdo que é os trabalhadores “destruírem” (sic) o patrimônio público, a saber, as vidraças do Congresso Nacional: “Uma foto isolada pode chocar. Um patrimônio que levou anos para ser construído e custou o suor e sacrifício alheios e destruído em minutos por BANDIDOS MILITANTES deveria chocar MUITO MAIS”.

Vemos aqui uma completa inversão de valores. De um lado o manifestante, lutando por seus direitos, é chamado de “vagabundo” por não estar “trabalhando”. De outro, e aqui considero que chegamos ao ponto nodal da conjuntura atual, mais vale o patrimônio que a vida de um manifestante. Chegamos no que Hanna Arendt chamou de “Banalização do Mal”, mas não entrarei em detalhes pois a especialista no assunto é minha colega cientista política Mariangela Nascimento.

São muitos os comentários que reproduzem a idéia de que “a vida dos que discordam de mim não importa”. Essa ideia de que a morte cai bem àqueles que pensam diferente me parece o portal para o fascismo. E isso me dá arrepios! Mesmo quando os próprios lutadores de esquerda usam desse artifício para enquadrarem quem pensa diferente deles. Esse argumento me dá arrepios não porque temos um governo golpista à frente do país, mas principalmente porque esse governo tem apoio e os desmandos que assistimos atualmente também.

Em um dos comentários absurdos me atrevi a uma resposta. Uma senhora disse: “Capaz de ser o ketchup de alguma mortadela sofisticada!” ao que prontamente respondi: “Não é. E pelo seu comentário vemos o quão desrespeitosa é com a vida alheia”. A banalização do mal nos cega diante dos fatos. É como se a ideia de que tudo a nossa volta é passível de corrupção que toda e qualquer imagem, mesmo aquela que retrata um ocorrido tivesse que ser alvo da dúvida em um primeiro olhar.

Sabemos que o povo brasileiro, particularmente sua elite, há muito não se afeta com as mazelas de quem com eles compartilha uma identidade nacional. Genocídios indígenas, assassinatos de mulheres, jovens negros e pessoas LGBT ocupam nossas redes sociais cotidianamente. Mas gente como essa “não merece a minha preocupação”.

Uma resposta que recebi ao meu comentário é que a “população LGBT está se tornando cada vez mais conservadora”. Numa primeira leitura tomei o comentário como um ataque pessoal. Respondi com a minha revolta de que o mundo estava de ponta cabeça, uma vez que é conservador quem se afeta com o sangue que jorra dos lutadores que defendem nossos direitos em Brasília. Me afetei de tal forma que resolvi tomar as manifestações de ontem como tema dessa coluna. Para a minha surpresa, já na escrita desse último parágrafo, o autor do comentário disse que estava se alinhando comigo em nossa revolta sobre o sangue que jorrou em nossa capital no dia de ontem. Ao ocorrido não tenho respostas a não ser me posicionar ao lado dos trabalhadores e da juventude que resistem em nosso país. Acredito no Brasil e acho que, depois dessa tempestade, teremos calmaria. Ou não, pois como já nos ensinou um importante teórico da esquerda, “a revolução deve ser permanente”.

Texto: Prof. Dr. Felipe Bruno Martins Fernandes | Professor do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da UFBA e Coordenador do GIRA.

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